terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem falsa modéstia, eu logo soube que você seria minha. Não (só) por nossas noites de fim inesperado e aquele bombom de brigadeiro. Não (só) porque você riu comigo quando ouvimos que o Rogério ia trabalhar um pouquinho. Não (só) pelo nosso namorinho no ponto de ônibus, até perdermos todos.
Mas (também) por perdermos a hora, perdermos o rumo, por não querer ir embora. E não ir. Por ter enfrentado minha falsa exacerbada pretensão. Pelo bar, que nos implorava: "apaixonem-se".
Hoje, só por sê-lo contigo, encontro-me na lista dos afortunados seres mais felizes do mundo. Porque não há um problema sequer que sobreviva ao teu sorriso, ao teu afago. Faz frio e eu te queria mais perto, cheirar tua nuca e adormecer em teu calor.
Tenho medo dessa felicidade toda.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Há de se ser frio para girar a chave, assim, na porta, como se fosse uma saída qualquer. Pouco antes, enxergara o reflexo de seu vulto no espelho que fica no fim do corredor. Foi orgulho o que sentiu ao ver a inocência antes habitante daquele rosto perder o reinado para olhos de brilho cruelmente charmoso.
Bateu a porta sem força, mas o barulho retumbou no peito. Prazer. "Então é assim que sorriem os sádicos", pensou. "Com sangue escorrendo entre os dentes". Sábios. Questão de segundos para mudar a fisionomia e a emoção. De humilhação a prazer. Há de se ser frio para sorrir assim após tomar essa decisão. Pois, com tal escolha, acordaria também o não mais pertencer à sociedade. "A sociedade é que pertence a mim", completou em pensamento, para deixar a frase bonita.
De cidadã comum a psicopata marginalizada. Até as unhas, que até então representavam sua destreza e caráter absurdamente confiável pelo rigor do zelo (era de alinhamento e brilho invejáveis) agora, roídas e pintadas de vermelho, com o esmalte descascando, a expunham como uma vilã barata de minissérie de quinta. Ou uma putinha qualquer.
Foi-se sem trancar a porta. Era o dia da subversão. Guiou calma e sem pressa. Não queria que nada lhe ancorasse no caminho. Entrou sem bater. Já de luvas, pegou o canivete na mesma gaveta de sempre. Encontrou-o dormindo, como esperava. Deu-lhe um beijinho na ponta do nariz para que acordasse tranqüilo. Fez questão de que se olhassem nos olhos. Espetou-lhe a garganta. De longe, pra não se sujar de sangue.
Entrou na padaria vizinha louca por um cigarro e um café.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O mundo é um moinho

Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida, já anuncias a hora de partida sem saber mesmo o rumo que irás tomar. Preste atenção, querida. Embora eu saiba que estás resolvida, em cada esquina cai um pouco a tua vida. Em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem, amor. Preste atenção, o mundo é um moinho; vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó.
Preste atenção, querida; de cada amor, tu herdarás só o cinismo. Quando notares estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com os teus pés.

(CARTOLA. O mundo é um moinho, 1976)


terça-feira, 23 de março de 2010

Levê-me

Tem tanta gente querendo morrer. Tem tanta gente que morre querendo viver. Puta sacanagem. Noites em claro, pesadelos quase menos piores que a vida "real". Escape, sonho não se controla. Ou sim, mas eu não consigo. Não é esse o ponto. O que me consola é lembrar das minhas agonias, nesse mesmo lugar, e dizer-me: ainda bem que não morri. Passada a ressaca, a vida me trouxe gratas surpresas que eu não teria vivido se minha vontade tivesse sido realizada.

Felicidade dói. Dói porque não é uma constante. Não é como ser um metro e quase sessenta, que, com mais alguns centímetros será a medida do meu caixão. É um estado, é coisa que passa.

O tesouro não deveria vir pela batalha. Quando é difícil, a gente valoriza, a gente se apega. Eis aí a pá com a qual cavamos nossa cova: te apega, só pra ver. Passa. Acaba. É finito.

A fumaça subindo na minha cara me deu a sensatez de pedir exatamente aquilo que preciso. Simples, sem drama. Quero o remanso de CB para dizer serena e convictamente algo que não poderia fazer mais sentido: passou este verão, outros passarão, eu passo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Drama e Pulôver

Conforme o combinado, não começaríamos este drama falando sobre o tempo. No entanto, logo percebemos que inventamos as regras para podermos quebrá-las sem culpa. Pois bem. Adiantamos logo no primeiro parágrafo: frio.
Frio para que imaginem nossos interlocutores com casacos forradinhos e cachecol. Não, casacos forradinhos lembram ternura, e não é esse o sentimento que queremos despertar. Entendam, ela de pulôver cor de vinho gola alta, ele de camisa branca e gravata. Frio, não?
Frio com chuva. Uhum. Calma, controlem suas mentes apressadas que já estão vendo noite, lareira, vinho tinto e vamos fazê-lo aqui no tapete mesmo. Noite, não. Manhã. A chegada repentina da chuva, que assustou nossos protagonistas, de fato, deixou tudo mais charmoso. Foi o que pensaram. Todo esse aconchego, pra não querer estar ali.
No sofá. O temporal cortou temporariamente a eletricidade (poderíamos ser mais óbvios?). Nenhum contato físico. Distância segura. Sentados lado a lado só pra disfarçar a hostilidade, mas um desconforto mútuo e um silêncio constrangedor os separa. É claro que lhes vêm à cabeça o como tudo foi ficar assim, e todas aquelas horas no telefone? Pieguice demais, uma revistinha de palavras cruzadas com uma atividade não terminada em cima da mesinha de centro, um pratinho com alguns farelos de biscoito. Logo as formigas vêm, mas dá medo de se mexer, devaneou a moça. Os ponteiros do relógio andando mais devagar que o normal. O cenário está pronto, atentemo-nos à pouca ação (vinte minutos que pareceriam vinte horas).
Ele fingia ler a Época, ajeitando os oclinhos de fina armação. Na verdade, a espionava. A revista, a gravata, os oclinhos e até a chuva eram desculpas para ficar ali um pouco mais. Já que seria o último dia. Isso foi o melhor que conseguimos na tentativa de criar um clímax.

Decidiu-se enquanto observava. Ela não conseguia esconder a impaciência, pernas balançando, unhas roçando na própria corrente de bolinhas que levava no pescoço causando um barulhinho chato. Ele percebeu tudo. Disse baixinho que a amava. Ela sorriu sem mostrar os dentes, se levantou e foi até a cozinha. De lá, gritou perguntando se ele queria mais biscoitos, mas quem teria fome numa hora dessas?
Só se fosse pra comer você, verbalizou em silêncio. Provocou um toque sutil de mãos quando ela voltou a se sentar. E, nada. Ela não tirava os olhos dos biscoitinhos de fubá que trouxera da cozinha, ele querendo ou não. Você foi longe demais.
Nada doeu mais que a falta de brilho nos olhos. Lembrou-se de quando a pediu em namoro, os corações palpitando e o indiscutível brilho nos olhos. Não restava mais nada, e o barulho da chuva era de chuva qualquer. Quando foi que a perdi?

Deixa pra lá.
- A chuva estiou. Melhor eu ir.
Despediram-se com um selinho gelado e rápido. Foi embora e não voltou mais. Ela nem notou.