sexta-feira, 3 de julho de 2009

Eu até queria que você soubesse

O que, pra você, pode ser que não seja, ainda, uma novidade. Não importa. Mas é que, dessa vez, foi diferente.
Lembrei foi do sorriso - imagem que, há tempos, não me assombrava. Digo porque lembro sempre um pouco por dia, e com o passar dos dias, andava lembrando cada vez menos. Achei que seria natural até não lembrar mais - o que já deve ter acontecido, dia ou outro. Até que.
Do sorriso que erguia o nariz, com a cabeça levemente inclinada, com o olhar doze-anos-que-bobagem. E às vezes ríamos e me encostava a testa, o nariz franzido. Era tão verdadeiro, ou tão bem forjado! Ah, meu coração, voz de Sessão da Tarde.
Também franzia o nariz pra coçar de um jeito esquisito. Era a fraqueza. Encostava o polegar no mindinho, e os outros três, esticados e juntos. Virava-se pro lado, para que ninguém visse - igual quando ia fumar, tentando se esconder. Era minha parte favorita. Coçava a ponta do nariz, com os olhinhos já também meio fechados, escondida.
Era a fraqueza, era a verdade. Era o momento em que deixava de se fazer a super mulher para ser ela mesma - uma garotinha que, como qualquer outra, sentia coceira no nariz.


Saudade.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ela não gosta de samba

mas quando me olha, assim, nos olhos, nem precisa mais de música. Ah, eu queria ver aqueles olhos brilhantes de novo, podia ser assim, de lado, que eu amava também os cílios, sem problemas, que o meu adeus foi com beijo na mão. E o logo que ainda não chegou? Eu realmente pareço, assim, uma ameaça pra ti?
Queria voltar a Barcelona.

terça-feira, 16 de junho de 2009

"Eu não sou, assim, muito certa com essas coisas"

foi o que eu disse! HAHAHA, grunhiu. Ao que, logo, foi correspondida com mais grunhidos, que se uniram e se motivavam um ao outro, cada vez mais alto, mais alto, mais feliz, mais estridente, mais despreocupado, mais verdadeiro, mais ruidoso, formando um grande estertor, que com pulmão não se brinca. Talvez, os entorpecentes. Só se sabe que riam de bater o punho na madeira, de lacrimejar incessante. Pela liberdade de rir de si mesmo (e sê-lo tão engraçado).
Vários minutos de até esquecer o assunto, mas a dor abdominal lembrou que deveriam recuperar o fôlego (tinha que largar o café).
- E sabe o que é pior? - fez-se entender após algumas tentativas. Pequenas doses de risos segmentados guardando o melhor para o final.
- O quê?
- É que funcionou!

domingo, 24 de maio de 2009

João Bosco

e sou excomungada. Reapropriando-me de termo bíblico - e, por tal, pecando (não usai o Santo Nome em vão) -, graças a Deus (!), ainda há quem condene sem julgamento, excomungue e mande para a cadeira elétrica aqueles que assassinam a música brasileira. Somos minoria, mas ainda existimos (palmas fracas, mas orgulhosas).
No entanto, depois da invenção da Roda, as coisas têm se atropelado de maneira tal que o lixo está caminhando pelas ruas, nos ônibus, nas praças, e, da poluição sonora, é quase impossível distingüir (com trema, porque eu sou teimosa) o A do Z, o norte do sul, o batidão do samba-canção (e, nesse último, se entreolham perguntando: ela está mesmo falando de cuecas?).
Enquanto isso, são as obras primas que vão pelo esgoto. E, no meio de toda essa ladainha, soltei: e o João Bosco? Fuzilaram-me. Mil olhos no pelotão. Sem brincadeira. Até os que nem participavam da conversa, voltaram as atenções a mim, no intuito de me ver dar o último suspiro, e deixá-los continuarem as vidas em paz, sem nunca mais ouvir tanta besteira.


Chorameliga

Gente. Não era desse João Bosco que eu estava falando! E pra explicar? Não, quem é excomungado é excomungado sem julgamento, lembra? Devo pagar, então, porque o nosso júri não pensou em João Bosco de Freitas Mucci.
Ele, que completa 63 anos agora, em julho, mais de vinte anos de carreira, mais de vinte discos gravados, autor do clássico O Bêbado e o Equilibrista, que já foi notícia no jornal O Pasquim, que compôs com Vinícius de Moraes, Aldir Blanc, que foi gravado por Elis Regina...

Esse João Bosco.

Ficou pra depois. É, com a invenção da roda, os universitários sertanejos chegaram e roubaram o nome do João Bosco assim, na maior cara de pau. E não só dele, né?
Vinícius
era usado pelo próprio de Moraes, quando em parceria com Toquinho. Toquinho e Vinícius. João Bosco e Vinícius. Não foi à toa que, quando me perguntaram se eu gostava da mais nova revelação do sertanejo universitário, eu fiquei confusa e cocei a cabeça. Mas, espera. João Bosco? Você tem certeza?
Não duvido que esse tal joãoboscozinho aí tenha sido batizado em homenagem ao de Freitas Mucci, que já tinha trinta e cinco anos e sete discos gravados quando o outro veio ao mundo.
Não me enganam. Sei que tem um monte de João no mundo. Mas, Bosco, eu não conheço muitos não.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Hoje, tive que

fumar um cigarro. Já é de minha consciência a urgência com que isso deve ser abolido de minha vida. Mas, hoje, tive que.
E constatei, depois de economizar a coca no pão-de-queijo para tê-la com o Marlboro Light, que o cigarro faz a coca ficar com gosto de detergente. Mas fumar me dá sede. E matei os 290ml.

Não é que, depois de ontem, falando sobre caminhar à sombra e não ser vista, aquela coisa bem
eu-gosto-tanto-de-você-que-até-prefiro-esconder-deixo-assim-ficar-
subentendido-como-uma-idéia-que-existe-na-cabeça-e-não-tem-
a-menor-pretensão-de-acontecer * hoje, literalmente, caminhei à sombra e não fui vista?

Sabia da possibilidade, mas não era muito provável. Seria muita coindicência, sabe? Pois é, passei em frente ao local onde trabalhas, mas já havia passado do horário (uns vinte e sete minutos). Nunca tinha reparado, mas faz parte da rota do ônibus que pego de vez em quando, o de hoje. Desci um pouco mais à frente e eis que vejo a linha de transporte urbano que eu sabia que podia estar lá. E estava. No último banco, à esquerda. Eu do outro lado, na rua, olhando pela janela. Não me viu.

Atravessei a rua e segui meu rumo. Foi só. Não vi mais. Andei até meus objetivos e depois sobrou-me um tempinho. Parei no bar onde tantas vezes me esperou. Pedi coca e pão-de-queijo. Depois, eu sabia. Tinha que fumar um cigarro.

(tenho tantos medos, mas isso fica pra depois. e mais: regredi cinco anos em três)

* SANTOS, Lulu - Apenas Mais Uma de Amor