terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tem gente que espera flores

Eu, que nunca fui muito das rosas nem de Deus, me encontro agora neste ritual quase religioso e de quase adeus. Elas já estavam partindo, de cabeça baixa. Escolhi a mais forte e bonita.
Agora, a enterro nas pesadas páginas deste meu relato.
Para que, aqui, seque. Para que, aqui, morra.
Para que, aqui, renasça, a cada sentir falta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Se um homem devesse viver a sua vida em toda a plenitude, dar forma a todos os sentimentos, expressão a todos os pensamentos, realidade a todos os sonhos, creio que o mundo ganharia um novo impulso de alegria que nos levaria a esquecer todos os males do medievalismo e a regressar ao ideal helênico. Talvez mesmo a algo mais refinado e mais rico que o ideal helênico. Mas o mais ousado de todos nós teme a si mesmo. O selvagem mutilado que nós somos sobrevive tragicamente na auto-rejeição que frustra as nossas vidas. Somos punidos pelas nossas rejeições. Todo o impulso que esforçadamente asfixiamos fica a fermentar no nosso espírito, e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e mais não precisa, pois a ação é um processo de purificação. E nada fica, a não ser a lembrança de um prazer, ou o luxo de um pesar. Ceder a uma tentação é a única maneira de nos libertarmos dela. Se lhe resistimos, a alma enlanguesce, adoece com as saudades de tudo o que a si mesma proíbe, e de desejo por tudo o que as suas leis monstruosas converteram em monstruosidade e ilegalidade. Diz-se que as grandes realizações deste mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e só aí, que ocorrem os grandes erros do mundo.

(WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray, 1891)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Apaixone-se por mim.

Não um amor de mesa posta, talheres de prata, toalha de renda, não um amor de terça-feira, água morna, gaveta arrumada. Apaixone-se por mim no meio de uma tarde de chuva, rua alagada, rosas na mão, um amor faminto, urgente, latejante, um amor de carne, sangue e vazantes, um amor inadiável de perder o rumo o prumo e o norte, me ame um amor de morte. Não me dê um amor adestrado que senta, deita, rola e finge de morto, que late, lambe e dorme. Apaixone-se felino, sorrateiramente e assim que eu me distrair, me crave os dentes, as unhas, role comigo e perca-se em mim e seja tão grande a ponto de me deixar perder. Ame minhas curvas, minha vulva, minha carne, me fecunde e se espalhe por meus versos, meus reversos, meus entalhes. Faça eu me sentir amada, desejada, glorificada em corpo e espírito que eu nunca soube o que é ser de alguém, mas preciso que me ensines, que me fales, que me cales, amém.

ANTONIETE, Patrícia.
Realmente o que queremos é comida rápida, em embalagem descartável. Comer e nem sujar a louça.

De fato troquei este que já me foi muito estimado blog por um espaço viciante limitado por apenas 140 caracteres.
Tá aí uma possível resolução para 2010: voltar a tentar escrever.

Quem sabe!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Tenho reclamado do frio, mas nessa cidade faz o típico calor de dezembro. Não em mim. A verdade é que meu tato repara e reclama quando tua ausência.
Se eu pudesse comparar, seria de frio a sensação da qual toda a extensão da minha pele padece quando se abstém do deleite do teu toque. De se arrepiar e se ouriçar inteira quando me procuras. Meu estômago se revira quando pressente a tua vinda.
Já abandonei a razão faz tempo, nem ouvi tocar o alarme de perigo. Lembro-me bem, ma belle, quando, entre um cigarro e outros mil, decidimos fazer o que deveria ser feito. Mas não sei qual foi o ponto onde não conseguimos mais evitar.
O que sei é que eu jamais esperava encontrar em você (logo você?) tamanho conforto e abrigo, braços nos quais eu posso me refugiar. A parte da tempestade eu já conhecia, mas quem diria que, um dia, fossem a mim direcionados os trovões e os carinhos?
E, a cada dia, mais me sinto precisar disso tudo. Isso é apavorante! O meu maior medo é perder o que antes não me fazia falta, mas que agora é combustível pra cada batida do meu coração.
Não tenho dúvida nenhuma. Quero tuas risadas de quadradinhos metálicos, tua opinião, teu sossego, tua loucura, tua vivacidade, tuas músicas, tuas ligações, nossos pequenos planos.
Quero você. Pra mim. E sem demora!

Pois é, esse samba é pra você, ó, meu amor. Esse samba é pra você que me fez sorrir, que me fez chorar, que me fez sonhar, que me fez feliz, que me fez amar.
Pois é, esse samba é pra você, ó, meu amor. Esse samba é pra você, pra você sorrir, pra você chorar, pra você sonhar, pra você feliz, pra você amar.
(ELLER, Cássia. Nós. São Paulo: Acústico MTV, 2001)