domingo, 10 de janeiro de 2010

Apaixone-se por mim.

Não um amor de mesa posta, talheres de prata, toalha de renda, não um amor de terça-feira, água morna, gaveta arrumada. Apaixone-se por mim no meio de uma tarde de chuva, rua alagada, rosas na mão, um amor faminto, urgente, latejante, um amor de carne, sangue e vazantes, um amor inadiável de perder o rumo o prumo e o norte, me ame um amor de morte. Não me dê um amor adestrado que senta, deita, rola e finge de morto, que late, lambe e dorme. Apaixone-se felino, sorrateiramente e assim que eu me distrair, me crave os dentes, as unhas, role comigo e perca-se em mim e seja tão grande a ponto de me deixar perder. Ame minhas curvas, minha vulva, minha carne, me fecunde e se espalhe por meus versos, meus reversos, meus entalhes. Faça eu me sentir amada, desejada, glorificada em corpo e espírito que eu nunca soube o que é ser de alguém, mas preciso que me ensines, que me fales, que me cales, amém.

ANTONIETE, Patrícia.
Realmente o que queremos é comida rápida, em embalagem descartável. Comer e nem sujar a louça.

De fato troquei este que já me foi muito estimado blog por um espaço viciante limitado por apenas 140 caracteres.
Tá aí uma possível resolução para 2010: voltar a tentar escrever.

Quem sabe!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Tenho reclamado do frio, mas nessa cidade faz o típico calor de dezembro. Não em mim. A verdade é que meu tato repara e reclama quando tua ausência.
Se eu pudesse comparar, seria de frio a sensação da qual toda a extensão da minha pele padece quando se abstém do deleite do teu toque. De se arrepiar e se ouriçar inteira quando me procuras. Meu estômago se revira quando pressente a tua vinda.
Já abandonei a razão faz tempo, nem ouvi tocar o alarme de perigo. Lembro-me bem, ma belle, quando, entre um cigarro e outros mil, decidimos fazer o que deveria ser feito. Mas não sei qual foi o ponto onde não conseguimos mais evitar.
O que sei é que eu jamais esperava encontrar em você (logo você?) tamanho conforto e abrigo, braços nos quais eu posso me refugiar. A parte da tempestade eu já conhecia, mas quem diria que, um dia, fossem a mim direcionados os trovões e os carinhos?
E, a cada dia, mais me sinto precisar disso tudo. Isso é apavorante! O meu maior medo é perder o que antes não me fazia falta, mas que agora é combustível pra cada batida do meu coração.
Não tenho dúvida nenhuma. Quero tuas risadas de quadradinhos metálicos, tua opinião, teu sossego, tua loucura, tua vivacidade, tuas músicas, tuas ligações, nossos pequenos planos.
Quero você. Pra mim. E sem demora!

Pois é, esse samba é pra você, ó, meu amor. Esse samba é pra você que me fez sorrir, que me fez chorar, que me fez sonhar, que me fez feliz, que me fez amar.
Pois é, esse samba é pra você, ó, meu amor. Esse samba é pra você, pra você sorrir, pra você chorar, pra você sonhar, pra você feliz, pra você amar.
(ELLER, Cássia. Nós. São Paulo: Acústico MTV, 2001)

domingo, 15 de novembro de 2009

Eu tenho um vício

que pode-se chamar de pai de todos os outros, soberano perto do álcool, do cigarro, da pirofagia. Meu vício não me esquece. Ele me encontra e me possui noite adentro, dia afora. Quando algum estrondo qualquer me chama de volta à realidade. Onde eu estive? A olhar pela janela enquanto a banda passa. Presa à minha cama, aos meus cinco minutinhos mais. Prostrada ao teto, lembrando, inventando, desejando, e esperando. Dessas criaturas que não saem da tela, de peles que têm escamas.
É assim que me componho: de pele quente e saudade. Mas já me acostumei às paredes frias do banheiro, que o meu lugar é na fila. Eu sou aquela que pode ficar pra depois, que não tem nada importante a dizer. Que não reclama, não acrescenta. Fui feita pras horas vagas, quando não estiver chovendo e você quiser me visitar, no meio da noite, quem sabe. Eu sou uma viciada, já mencionei?
Meu vício é tão forte que me seca os olhos, que me faz distante. Não penso em recuperação. Não sei o que é uma crise de abstinência, pois nunca passei um segundo sóbria. Eu bebo, eu fumo, eu como, eu ouço, eu durmo. Esse é o meu lugar, nem agora nem depois. Eu quero mais cinco minutos porque eu sei. Acaba sem demora. E, antes mesmo de acabar, eu já sinto o quanto vou sentir da lembrança do que agora se grava. Não é melhor que ontem, mas também, não é pior que amanhã. Se ele chegar. Vejo meus olhos secos se inundarem de terra e acho que finalmente não tenho mais tempo. Pra nada. Nem mais cinco minutinhos.
Meu vício, amigo, é esse se não te ficou bem claro. Estou deitada e já fechei os olhos. A terra incomoda, mas estou deitada e já fechei os olhos. Agora não parece tão mal. Melhor que ir lá pra fora e ser pior. Não consigo, sou viciada, me entenda. É cômodo aqui pra mim, eu fico. Quantos cinco minutinhos a mais eu puder. Sou viciada em conforto. Sou filha da preguiça. Tenho sono e só volto quando o vento me aqui trouxer. Até lá, o quê? A banda? Já vi. Já se passaram tantos carnavais. E eu aqui.

sábado, 12 de setembro de 2009

Agora eu vou cantar pros miseráveis

que vagam pelo mundo derrotados. Dessas sementes mal plantadas, que já nascem com cara de abortadas.


Andei cantando essa música. Pro vento, a refleti um pouco (se é que é possível refletir pouco, médio ou bastante, como se houvesse quantidade de reflexão). Mas engraçado que isso é coisa que se diz pra espelho. Refleti, mas não me enxerguei no meu espelho.

Pra pessoas de alma bem pequena, remoendo pequenos problemas, querendo sempre aquilo que não têm.

O sujo falando do mal-lavado. Fez tanto sentido quando a quis direcionar a tantas outras pessoas!

Pra quem vê a luz, mas não ilumina suas mini-certezas. Vive contando dinheiro, e não muda quando é lua-cheia.

E sou eu aqui! Eu não quis enxergar. Penso tanto em qualidade de vida, e a adio todo santo dia. É a única rotina que me disponho a cumprir: por não ser pré-estabelecida. Não anoto na minha listinha de to do things que preciso adiar mais umas horas, chegar atrasada de novo, perder mais um compromisso.

Pra quem não sabe amar. Fica esperando alguém que caiba no seu sonho. Como varizes que vão aumentando, como insetos em volta da lâmpada.

Fico aqui na minha sujeira, pensando em quanto seria bom ter o quarto e a vida limpa. Resolveria tudo. Amanhã, então...

Vamos pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala. Somos iguais em desgraça, vamos cantar o Blues da Piedade.
Vamos pedir piedade? Senhor, Piedade! Pra essa gente careta e covarde.
Vamos pedir piedade! Senhor, Piedade! Lhes dê grandeza, e um pouco de coragem!

* CAZUZA, Blues da Piedade