quarta-feira, 9 de setembro de 2009

E quem é que não anda insatisfeito

depois de acordar e perceber que o edredon só faz sentido em dias frios, e ter que aceitar que não se pode controlar nem imaginar quando vai ficar quente no meio da madrugada e você vai acordar suando com o edredon que te sufocou? Pior ainda é cobertor, que dá alergia em pessoas medíocres como eu, e pode ser o início de uma longa discussão que deixa uma ferida aberta e que, sabe-se lá se um dia vai fechar, e quando vamos parar de dramatizar essa situação que só um minimalista convicto, sem erva, sem pó, nem tv a cabo é capaz de pensar. Mas insatisfação mesmo é quando você se vê no espelho, falando com propriedade, levantando bandeira e batendo no peito por se perceber parte de uma parte da população, que, assim como você, empelota quando come manga.
Não vou surpreendê-los, mas escrevo hoje não para dizer o quanto é mais fácil encontrar infelizes alérgicos a lúpulo que pessoas que nunca pensaram na coisa toda da insatisfação como qualidade primária, essencial para o desenvolvimento humano. Também não vou falar de intolerância alimentar.

- A vida não é uma decepção?
- Sim, ela é. - respondeu sorrindo.

Iniciando o cumprimento de minhas ambiciosas metas de vida, esse é o primeiro da série de posts que farei para estudo. Tenho um mês, portanto, torçam por mim. Da lista de seis filmes, já vi Hiroshima, meu amor (o qual terei que assistir novamente, pois cheguei a cochilar em algumas partes), e, agora Santiago, de 2007, escrito e dirigido por João Moreira Salles (é, o irmão do Walter Salles). Entenda aqui.
Vamos lá. Literalmente cinema-arte, eu diria. Uma fotografia linda, uma linguagem diferente, mas não consegui me envolver com a história. Pra ser bem sincera, eu só me via, de fato, conseguindo tirar algum proveito do documentário quando o narrador interrompia Santiago, o mordomo, mostrando o lado obscuro da produção, ou mesmo contando alguma história na visão de João, quando deixava de ser o documentarista para ser o filho da família rica brasileira, que dava festas luxuosas e tinha um mordomo erudito e sofisticado. Sofisticação tanta que tocava castanholas em músicas (aqui, gostei da generalização usada no texto) que não eram espanholas, e escrevia uma espécie de enciclopédia sobre famílias nobres, artistas, e o que mais ele julgasse importante. Tudo devidamente guardado e catalogado, anos depois, no apartamento onde moraria sozinho, no Leblon.


Tudo isso eu entendi. Claro, quem me contou foi o narrador. É. Porque quando o pobre velhinho abria a boca para começar a contar suas encantadoras histórias, minha mente, simplesmente, dispersava - e não é por mal, isso é coisa difícil de controlar. Sei que posso estar parecendo cruel e ignorante, mas nosso ilustre personagem é um argentino, e, para mim, que não domino o idioma espanhol, além do plano parado, distante e preto e branco, havia uma barreira lingüística me impedindo de prestar atenção.

Cinqüenta e sete minutos (hipérbole, nós te amamos) assim, a cena parada, o senhorzinho contando uma história que eu não conseguia entender... Se há muita estética e não tanta preocupação com o enredo (afinal, a história do filme não era mais o mordomo, e sim o filme que iam fazer sobre ele, e não fizeram), alguns recursos merecem destaque, como o texto e a montagem em si. E também, algo que os editores mais desavisados (ou petulantes mesmo, que têm preguiça de ler e descobrir a merda do Adobe Premiere), chamam de Fade. Fade é quando a imagem some ou aparece gradativamente, sendo dissolvida na tela, que não é o que vou falar em seguida. Mania de brasileiro, de usar o termo errado.
Chamam de fade quando você deixa um espacinho na linha do tempo, e, sem perceber exporta o arquivo, deixando uma parte "em branco", que, na verdade, fica preto quando você vai assistir. O diretor usou esse recurso para, em algumas partes, deixar apenas o áudio ambiente, ou um off, dando aquela impressão de, no primeiro caso: estou lá, participando da produção do filme, ou, no segundo caso: reflitam aí sobre.
E a fotografia? Falei da fotografia. É, cinema-arte. Planos parados, horas e horas... Aí Santiago resolveu mostrar a dança das mãos. Tomem cuidado com essa parte.

Não vejo como ela possa ter alguma relevância no todo (assim como as milhões de histórias que eu não entendi), mas me chamou a atenção e foi uma cena que me marcou, no filme. Talvez, por ser demorada. Fica legal quando a música dá uma animada, depois, chega!
Como deu pra perceber, após muita enrolação, Salles nos mostra de onde tirou a inspiração para os geniais enquadramentos que havia adotado em 1992: "Viagem a Tóquio", filme de Yasujiro Ozu (quem?). A semelhância é atrevida e até cara-de-pau. Ele não esconde. É de um trecho desse filme que veio o mais bonito diálogo, que coloquei aqui no começo, valorizado, claro, pelo texto e narração de Santiago:
- A vida não é uma decepção?
- Sim, ela é.
Aqui poderia ter havido o discurso sobre insatisfação. Eu o vi, ensaiado, nas entrelinhas. Não porque vejo insatisfação em tudo, mas porque ela está em tudo.

João Moreira Salles encerra o filme sem medo de expôr o que muitos podem ter considerado cruel: a vida sendo tratada como produto industrial. Quando Santiago vai contar uma história e se refere a ele como "Joãozinho", Salles pede para que ele pare, e grave de novo. Sem "Joãozinho".

domingo, 16 de agosto de 2009

O Estopim


Bateu. Via a lua tocar o horizonte, no mar. As folhas das árvores entre cá e lá pareciam formar a sombra de uma mulher sentada, nua. Divertia-se sozinha tentando imitar a pose da mulher tão ensimesmada, tão absorta, refletida na luz lograda pela lua. Cogitou abordar a moça pra tirá-la do sério, e riu alto ao perceber que a água estaria muito gelada, e seria impossível chegar até lá. Foi ao ver a crescente dança das águas que percebeu o vento forte os mandando ir pra casa. Frio.

Seu menino fez menção de abraçá-la, à que logo foi rejeitado. Melhor ir embora, ela disse. Dirigiu ouvindo que ainda era cedo, vem comigo, vamos ver as estrelas mais um pouco, pode até ser na tevê. Ela pensava mais rápido do que podia falar, e mais ainda do que podia ouvir. Os argumentos não cessaram (pra quê olhá-la nos olhos?), muito menos os pensamentos. Que na cabeça estavam os outros amores, e como cada um deles (principalmente delas) conseguiu levar consigo uma parte - e não era do coração, era do sorriso - que não devolviam nunca mais.

Beijou-o com orgulho ao perceber que, mesmo ainda sentindo por cada um que lhe arrancou uma história, não queria estar beijando nenhuma outra pessoa no mundo inteiro naquele momento, nem se pudesse escolher, nem se tivesse fila. Sentia-se bem, só isso.

No entanto, até das certezas ela duvidava: sabia também que, pelos mesmos dedos que então exploravam aqueles fios de cabelo cacheado, o dono da cabeça logo iria escorregar feito água. Mais um a menos. As pessoas se cansam. Já nem sabia mais se era segredo ou não, mas, de fato, além dos pedaços do sorriso, tiraram dela, também, a capacidade de se importar com isso.

Elconsorte mal bateu a porta do carro, e ela acelerou. Colocou um chiclete novo na boca e acelerou, apática e vazia.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Eu até queria que você soubesse

O que, pra você, pode ser que não seja, ainda, uma novidade. Não importa. Mas é que, dessa vez, foi diferente.
Lembrei foi do sorriso - imagem que, há tempos, não me assombrava. Digo porque lembro sempre um pouco por dia, e com o passar dos dias, andava lembrando cada vez menos. Achei que seria natural até não lembrar mais - o que já deve ter acontecido, dia ou outro. Até que.
Do sorriso que erguia o nariz, com a cabeça levemente inclinada, com o olhar doze-anos-que-bobagem. E às vezes ríamos e me encostava a testa, o nariz franzido. Era tão verdadeiro, ou tão bem forjado! Ah, meu coração, voz de Sessão da Tarde.
Também franzia o nariz pra coçar de um jeito esquisito. Era a fraqueza. Encostava o polegar no mindinho, e os outros três, esticados e juntos. Virava-se pro lado, para que ninguém visse - igual quando ia fumar, tentando se esconder. Era minha parte favorita. Coçava a ponta do nariz, com os olhinhos já também meio fechados, escondida.
Era a fraqueza, era a verdade. Era o momento em que deixava de se fazer a super mulher para ser ela mesma - uma garotinha que, como qualquer outra, sentia coceira no nariz.


Saudade.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ela não gosta de samba

mas quando me olha, assim, nos olhos, nem precisa mais de música. Ah, eu queria ver aqueles olhos brilhantes de novo, podia ser assim, de lado, que eu amava também os cílios, sem problemas, que o meu adeus foi com beijo na mão. E o logo que ainda não chegou? Eu realmente pareço, assim, uma ameaça pra ti?
Queria voltar a Barcelona.

terça-feira, 16 de junho de 2009

"Eu não sou, assim, muito certa com essas coisas"

foi o que eu disse! HAHAHA, grunhiu. Ao que, logo, foi correspondida com mais grunhidos, que se uniram e se motivavam um ao outro, cada vez mais alto, mais alto, mais feliz, mais estridente, mais despreocupado, mais verdadeiro, mais ruidoso, formando um grande estertor, que com pulmão não se brinca. Talvez, os entorpecentes. Só se sabe que riam de bater o punho na madeira, de lacrimejar incessante. Pela liberdade de rir de si mesmo (e sê-lo tão engraçado).
Vários minutos de até esquecer o assunto, mas a dor abdominal lembrou que deveriam recuperar o fôlego (tinha que largar o café).
- E sabe o que é pior? - fez-se entender após algumas tentativas. Pequenas doses de risos segmentados guardando o melhor para o final.
- O quê?
- É que funcionou!